Upa é o mesmo que dar braço ou colo. O Tomás, que mistura muito os dois idiomas, às vezes pede do nosso jeito e em outras à moda argentina. Eu acho lindo quando ele diz: mamãe, quero upa (assim mesmo, em português e espanhol ao mesmo tempo).
E Danza a Upa é um espetáculo de teatro concebido para bebês de oito meses a três anos. É curto, só dura meia-hora e tem muita cor e movimento. Eu achei que o Tomás ia ficar meio inquieto e ficou mesmo, mas só até a peça começar. Aí, assistiu quietinho e boquiaberto.
O local da apresentação chama Teatro del Angel (achei lindo o nome). No site deles, diz que é o primeiro teatro para bebês da Argentina (não sei se tem um lugar assim no Brasil, mas deveria). As arquibancadas são baixas para que os pequenos possam subir e descer e tem colchonetes espalhados pelo chão. Ou seja, seguro até para os mais levados como o meu filho.
Fomos conhecer este teatrinho no dias das crianças argentino, em agosto. Amanhã, é dia das crianças no Brasil e eu espero comemorar com o Tomás da mesma forma, com um passeio legal, carinho e atenção. Quem sabe um pique-nique, um cinema ou outro teatrinho? Ainda não escolhi o passeio, mas programação cultural e infantil por aqui é o que não falta.
O que certamente não vai ter no dia das crianças dele (na data brasileira ou na argentina) é presente caro. Não sou a favor de estimular o consumismo e na minha vida atual, nem tem espaço pra isso. Daqui um ano ou dois, vamos embora e quanto menos coisa pra levar, melhor.
Sempre estraguei os afilhados e filhos de amigos, então, deixo esta missão para os avós e tios do Tomás. De mim, ele recebe educação, atenção, muito amor e carinho. Ah, e upa também.
A gente brinca, cozinha e cuida das plantas juntos, faz acampamento na sala de casa, dança, canta, vai ao cinema, ao teatro, ao parquinho. Já transformamos uma caixa de ar-condicionado em teatro de fantoche, fizemos bonecos com rolos de papel higiênico, boliche com garrafa de água e pintamos (ou melhor, sujamos) a casa de tinta várias vezes. E quer saber? Acho que é mais divertido assim.
Em Buenos Aires
quinta-feira, 11 de outubro de 2012
sexta-feira, 5 de outubro de 2012
Sorria, você está em Buenos Aires
Tomás com a Mafalda
Até quem não é fã de quadrinhos, pelo menos, já ouviu falar
no argentino Quino – mais famoso cartunista do país – e na sua Mafalda – a
menina contestadora e preocupada com a paz mundial, que nasceu nos anos 1960 e
ganhou notoriedade em todo o mundo.
Os turistas que visitam Buenos Aires fazem fila para tirar
fotos com a estátua da pequena notável na esquina das ruas Defensa e Chile, no
bairro de San Telmo.
Mas agora Mafalda não está mais sozinha. Ganhou a companhia
da escultura de outro personagem, o playboy argentino Isidoro Cañones, criado
por Dante Quinterno.
Nos próximos meses, outros personagens, como Larguirucho, de
M. García Ferré, e Clemente, de Caloi, também vão ganhar “corpo” nas ruas da
capital portenha formando o Paseo de la Historieta. A última estátua do Paseo
vai ser do personagem atual e campeão de vendas de livros, Gaturro, do
cartunista Nik.
O novo circuito turístico vai ter seis quarteirões, saindo
da estátua da Mafalda e seguindo em direção a Puerto Madeo, onde foi lançado
recentemente o Museu do Humor gráfico argentino. A ideia é atrair os curiosos
até o Museu, que foi inaugurado no prédio (lindo!) de uma antiga cervejaria, La
Munich.
Achei o lugar mal cuidado, principalmente, por ter sido
inaugurado há tão pouco tempo. Mas vale a visita, até porque fica no Puerto
Madero entre o canal onde estão os restaurantes (parada certa dos visitantes) e
o Parque da Costanera Sur (pouco conhecido dos turistas, mas adorado pelos
portenhos).
No Museu, dá para conhecer um pouco da história do humor
gráfico argentinos desde o século XIX até os dias de hoje. Pra mim, ficou
faltando a Maitena e suas “mulheres alteradas”, talvez por uma questão de mera
identificação.
Pra quem vier por aqui, fica a dica: conhecer um pouco da
tradição humorística argentina e sorrir. Aliás (sou suspeita pra falar, porque
adoro a cidade), estar em Buenos Aires já é um bom motivo para sorrir.
quinta-feira, 27 de setembro de 2012
La inseguridad
Há algum tempo, eu queria tirar fotos dos murais da Evita no Ministério do Desenvolvimento Social, mas quase nunca vou pros lado de lá. Hoje, aproveitei que estava por perto e sentei num café bem próximo ao prédio, na Avenida 9 de julho. Assim que tirei a câmera da bolsa, o garçom me alertou: moça, esconda sua câmera, senão passam uns "chicos" e levam. Só consegui fazer uma única foto (que nem ficou boa, mas postei assim mesmo), tomei meu café rapidamente e fui embora.
Vim pra casa pensando em escrever sobre a sensação de insegurança que percebo em Buenos Aires. No começo, nem me ligava nisso. A cidade é tão linda que ofuscava qualquer perigo. Mas com o tempo, acabei entrando um pouco na onda.
As pessoas falam muito na insegurança, a televisão mostra assaltos o dia todo e a violência é sempre apontada pelos manifestantes como um dos motivos para os "cacelolazos" contra o governo. No site do Consulado do Brasil, tem um alerta para os turistas brasileiros sobre o grande número de furtos. Tudo isso, infelizmente, me lembra muito a minha Fortaleza, onde as pessoas vivem em pânico. A diferença é que aqui ainda não encontrei segurança armado na porta dos comércios, o que é tão comum por lá.
Segundo a última pesquisa do Latinobarômetro, o principal problema do país para o argentinos é a violência, com 35% das citações espontâneas. Para os brasileiros, o principal problema é a saúde com 18%. Mas a percepção pode não ser um retrato fiel da realidade.
A capital portenha tem uma taxa de homicídio de 5,81 por cada 100 mil habitantes, segundo relatório da Justiça Argentina de 2010. A capital brasileira com melhor índice é São Paulo e tem mais que o dobro, 13,7. Fortaleza está em 12⁰ lugar, com 45,9 homicídios por cem mil habitantes e a capital mais violenta, Maceió, com 109,9. Os dados brasileiros são do mapa da violência divulgados neste ano com base em 2010.
O número de homicídios costuma ser o indicador mais concreto para medir a violência, porque em casos de furto, por exemplo, ou de violência doméstica e sexual, costuma haver muito sub-notificação. Mas não explicam a sensação de insegurança, já que o medo é subjetivo e muito ligado àquilo que nos afeta. Se as pessoas sentem insegurança, deve sim haver uma razão para isto.
Quando comecei a escrever este texto, uma amiga comentou no facebook que sofreu uma tentativa de assalto hoje em San Telmo. Não quero alarmar ninguém, afinal, os números mostram que Buenos Aires é mais segura que qualquer capital brasileira. Mas não custa nada ficar atento e seguir o aviso do Consulado.
quarta-feira, 26 de setembro de 2012
Brincando de gente grande
Outro dia, ia caminhando pela rua com o Tomás e, de repente, ele aponta e diz: mamãe, banco, dinheiro. Perplexa, pergunto: e o que a gente faz com o dinheiro? Ele responde: compra. Pronto, criei um mini-capitalista.
Mas, antes que entrasse em pânico e decidisse criar o Tomás numa comunidade alternativa, lembrei como esta história começou. No Museu de los Niños.
Capitalismo ou anti-capitalismo a parte, o passeio (que é pago, obviamente) é super divertido. Uma cidade em miniatura, onde as crianças brincam e aprendem brincando.
Na verdade, meu filho estava apenas recordando que brincou de trabalhar num banco. Depois sacou dinheiro de brinquedo e levou para fazer compras no supermercado. Ufa!! Ele ainda não está contaminado pelo consumismo e, juro, quase nunca me pede pra comprar nada, nem mesmo em loja de brinquedos (até porque se pedir, geralmente, escuta um não).
No Museu de los Niños, o Tomás também dirigiu caminhão, pilotou um navio, trabalhou nos correios, brincou de médico, de frentista de posto de gasolina e de jogador de futebol.
A única parte que ele não viu a menor graça foi brincar de ser jornalista. E olha que ele já sabe que o papai e a mamãe são jornalistas. Mas sempre diz o trabalho dele é ir pra escola e o nosso ficar em casa. Por isso, quando crescer ele não quer ser jornalista, quer andar na corda igual ao moço do parque. Mal sabe ele, que na vida adulta a gente se equilibra todos os dias.
sexta-feira, 21 de setembro de 2012
Flores pra todo lado
Fui recebida na escola do Tomás hoje com um "feliz primavera". Teve festa, lembrancinha, tudo pra comemorar a estação mais colorida do ano.
Mas, para minha supresa, as celebrações não são só coisa de escola de criança.
Por toda parte, as pessoas se reuniram, com direito a show no planetário e nos parques. A TV passou o dia mostrando as comemorações pela cidade.
Achei lindo ver todo mundo com roupa florida e carregando flores pela rua. A manicure ganhou um buquê do namorado enquanto fazia a minha unha e me matou de inveja.
Acabei entrando no clima também. Coloquei roupa florida e resolvi enfeitar a casa. E vim aqui desejar feliz primavera pra vocês.
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
Muitos canais e pouca informação na TV argentina
A quantidade de canais de notícia na TV a cabo argentina chama a atenção. São oito canais e no Brasil apenas três. Assuntos como política e economia fazem muito mais sucesso entre os hermanos que entre nosotros.
Aqui, é mais do que comum debater sobre o governo com o taxista ou o porteiro do prédio. Discute-se política e economia com a facilidade com que se fala de futebol ou de novela. Alguns cientistas políticos e economistas viram celebridades com direito a matéria de capa na revista Caras.
E a realidade se reflete na telinha, como diriam alguns teóricos por aí. Num canal, uma mesa redonda discute o câmbio, no outro a inflação, no outro a reforma da Constituição. Até debate sobre Foucault na TV eu já assisti. E pasmem, tem audiência.
Mas nem a concorrência nem a audiência eleva a qualidade da televisão argentina (e falo de modo geral, não só dos canais de notícia) . Há bizarrices sem fim, mas eu prefiro me ater a falar do telejornalismo.
Uma matéria publicada hoje no La Nación questiona o mérito, a falta de pluralidade do noticiário. As críticas são relacionadas à cobertura do último panelaço. Milhares de pessoas nas ruas e muito pouco na TV.
Diria que falta agilidade também. E qualidade técnica. Há poucas reportagens. O mais comum é deixarem o link de vivo aberto com transmissões que vão de discurso presidencial, a protestas ou uma movimentação pós tentativa de assalto. Logo que cheguei o caso de uma menina desaparecida comoveu o país e a mãe dela, as tias, as vizinhas choravam o dia inteiro ao vivo na televisão.
Os telejornais geralmente tem bancadas enormes, com apresentadores que falam sobre tudo enquanto tomam café com medialuna. Antes dos intervalos toca até Michel Teló e Gustavo Lima. O pior dos canais de notícia usa música de suspense e letreiros (sempre os mesmos diga-se) para anunciar o início da primavera ou qualquer catástrofe.
Os brasileiros acostumados com a nossa boa e velha televisão tomam um choque. Pelo menos, os que ficam aqui em casa percebem e comentam a diferença. Quem me conhece sabe que sou apaixonada por televisão. Já trabalhei em televisão, estudei sobre televisão, adoro assistir TV e ler sobre o assunto, talvez por isso até prefiro não falar muito. E vou terminar o texto com uma justificativa/defesa (embora seja apenas uma hipótese minha, deve haver outros motivos também).
Recentemente, encontrei num livro um bom motivo que talvez explique o desnível entre a nossa TV e a argentina. Não existe uma tradição de televisão comercial. O serviço foi estatizado pelos militares e cada arma ficou responsável por um canal. Imagina como devia ser a programação da Marinha ou da Aeronáutica?? Só voltou à inciativa privada no início dos anos 1990. Ainda está engatinhando.
Aqui, é mais do que comum debater sobre o governo com o taxista ou o porteiro do prédio. Discute-se política e economia com a facilidade com que se fala de futebol ou de novela. Alguns cientistas políticos e economistas viram celebridades com direito a matéria de capa na revista Caras.
E a realidade se reflete na telinha, como diriam alguns teóricos por aí. Num canal, uma mesa redonda discute o câmbio, no outro a inflação, no outro a reforma da Constituição. Até debate sobre Foucault na TV eu já assisti. E pasmem, tem audiência.
Mas nem a concorrência nem a audiência eleva a qualidade da televisão argentina (e falo de modo geral, não só dos canais de notícia) . Há bizarrices sem fim, mas eu prefiro me ater a falar do telejornalismo.
Uma matéria publicada hoje no La Nación questiona o mérito, a falta de pluralidade do noticiário. As críticas são relacionadas à cobertura do último panelaço. Milhares de pessoas nas ruas e muito pouco na TV.
Diria que falta agilidade também. E qualidade técnica. Há poucas reportagens. O mais comum é deixarem o link de vivo aberto com transmissões que vão de discurso presidencial, a protestas ou uma movimentação pós tentativa de assalto. Logo que cheguei o caso de uma menina desaparecida comoveu o país e a mãe dela, as tias, as vizinhas choravam o dia inteiro ao vivo na televisão.
Os telejornais geralmente tem bancadas enormes, com apresentadores que falam sobre tudo enquanto tomam café com medialuna. Antes dos intervalos toca até Michel Teló e Gustavo Lima. O pior dos canais de notícia usa música de suspense e letreiros (sempre os mesmos diga-se) para anunciar o início da primavera ou qualquer catástrofe.
Os brasileiros acostumados com a nossa boa e velha televisão tomam um choque. Pelo menos, os que ficam aqui em casa percebem e comentam a diferença. Quem me conhece sabe que sou apaixonada por televisão. Já trabalhei em televisão, estudei sobre televisão, adoro assistir TV e ler sobre o assunto, talvez por isso até prefiro não falar muito. E vou terminar o texto com uma justificativa/defesa (embora seja apenas uma hipótese minha, deve haver outros motivos também).
Recentemente, encontrei num livro um bom motivo que talvez explique o desnível entre a nossa TV e a argentina. Não existe uma tradição de televisão comercial. O serviço foi estatizado pelos militares e cada arma ficou responsável por um canal. Imagina como devia ser a programação da Marinha ou da Aeronáutica?? Só voltou à inciativa privada no início dos anos 1990. Ainda está engatinhando.
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
A "disneylândia" da Cristina
Tecnópolis é uma mega feira de ciência e tecnologia organizada pelo governo argentino. A primeira edição foi em 2011 para marcar o bicentenário da independência. E neste ano, repetiram a dose. Agora, já se fala até em transferir a Feira do Livro de Buenos Aires para o local. A exposição começou em julho e vai até o próximo mês.
No último fim de semana, fomos finalmente conhecer. O ponto alto (pelo menos pra nós) é a mostra de dinossauros. São bonecos enormes (como nunca vi um dinossauro não sei se estão em tamanho original, mas imagino que sim), com som e movimento. O Tomás que é louco por dinossauros ficou maravilhado e tem certeza que eram de verdade. Ele diz que foi para um zoológico de dinossauros.
Diante do encantamento do meu filho, eu tenho que me render e dar o crédito necessário ao grande parque de entretenimento da Cristina Kirchner. Até mesmo os jornais de oposição se renderam e admitiram que foi a grande atração das férias para crianças. No inverno tinha ainda pista de patinação e no ano passado um pedaço de um glaciar da Patagônia.
O lado feio também existe, claro. Já apareceram denúncias de corrupção e superfaturamento. Além disso, é propaganda explícita do governo. Até chegar no parque de dinossauros, há um longo caminho onde se pode descobrir, por exemplo, gastos com educação, construção de casas populares, investimento em saneamento, etc
Fora isso, é diversão garantida. Até pra quem não é mais tão pequeno assim.
No último fim de semana, fomos finalmente conhecer. O ponto alto (pelo menos pra nós) é a mostra de dinossauros. São bonecos enormes (como nunca vi um dinossauro não sei se estão em tamanho original, mas imagino que sim), com som e movimento. O Tomás que é louco por dinossauros ficou maravilhado e tem certeza que eram de verdade. Ele diz que foi para um zoológico de dinossauros.
Diante do encantamento do meu filho, eu tenho que me render e dar o crédito necessário ao grande parque de entretenimento da Cristina Kirchner. Até mesmo os jornais de oposição se renderam e admitiram que foi a grande atração das férias para crianças. No inverno tinha ainda pista de patinação e no ano passado um pedaço de um glaciar da Patagônia.
O lado feio também existe, claro. Já apareceram denúncias de corrupção e superfaturamento. Além disso, é propaganda explícita do governo. Até chegar no parque de dinossauros, há um longo caminho onde se pode descobrir, por exemplo, gastos com educação, construção de casas populares, investimento em saneamento, etc
Fora isso, é diversão garantida. Até pra quem não é mais tão pequeno assim.
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