Em Buenos Aires

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

Leitura engajada


Por Marina Mota | Para o Valor, de Buenos Aires

Logo na entrada da livraria El Ateneo - a mais famosa e visitada de Buenos Aires - uma das estantes de produtos à venda revela duas paixões dos argentinos: os livros e a política. O resultado dessa combinação é visível também nos números do mercado editorial: cerca de 25% das publicações argentinas estão relacionadas à política, segundo Jorge Testero, presidente da Comissão do Livro Social e Político da Câmara Argentina do Livro.

Em 2010 foram publicados 26,3 mil títulos, sendo 22,7 mil novas obras, de acordo com dados da entidade. As vendas chegaram a quase 76 milhões de exemplares e os livros classificados como políticos e sociais representaram mais de 20% do montante. No Brasil, mercado quatro vezes e meio maior que o argentino, foram publicados 54,7 mil títulos em 2010, mas os lançamentos na categoria de títulos políticos e sociais não chegaram a 19 mil, de acordo com uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo.

Os números argentinos de 2011 ainda não estão disponíveis, mas Testero adianta que houve crescimento. Curiosamente, os livros políticos não são baratos, custam em média entre US$ 25 e US$ 30. "Do ponto de vista comercial, é uma das áreas editoriais mais dinâmicas, com muitos lançamentos, promoções e uso desses títulos pelas livrarias para atrair clientes", diz.

"No próximo ano, certamente vão ser lançados numerosos livros por causa das eleições parlamentares, repetindo o que aconteceu em 2011, também de eleições", afirma Daniel Molina, crítico literário e coordenador da área de letras do Centro Cultural Ricardo Rojas da Universidade de Buenos Aires. Como no geral são livros feitos de forma muito rápida, Molina questiona a qualidade. "Há investigações sérias, mas também obras ruins, com muitos erros."

Historicamente, o debate político tem sido muito popular no país. "A decisão de compra é uma forma de marcar posição. Os partidos estão enfraquecidos, então a classe média encontra nos livros um substituto psicológico", diz Molina. O fenômeno, para ele, tem a ver também com uma forte tradição de leitura. "Isso só faz sentido porque as pessoas leem muito. Desde a independência o debate se dá dessa forma", acrescenta Molina.

O próprio nascimento da literatura argentina está relacionado com o tema. Em 1838, foi escrito o conto "El Matadero", de Esteban Echeverría, que denunciava a ditadura de Juan Manuel de Rosas. Sete anos depois, Domingos Sarmiento, futuramente presidente da República, publicou o romance "Facundo", em que resgata a história de Facundo Quiroga, um caudilho da província de La Rioja.

Outro marco é a obra "Operación Masacre", de Rodolfo Walsh. Lançado em 1957, o livro narra o fuzilamento de civis pelo governo do general Aramburu, dando os primeiros passos num estilo que acabaria conhecido alguns anos depois como jornalismo literário, quando Truman Capote publicou "A Sangue Frio" nos Estados Unidos. Depois de uma entressafra de duas décadas a partir dos anos 1970 - período marcado por umas das ditaduras mais violentas da América Latina -, a tendência voltou forte no início dos anos 1990.

A nova onda foi inaugurada pelos livros "Robo para la Corona", de Horacio Verbitsky, e "Por Qué Cayó Alfonsín, el Nuevo Terrorismo Económico", de Luis Majul, dois recordistas de vendas. Ambos os autores são jornalistas muito conhecidos no país. No ano passado, Majul lançou outro fenômeno editorial, "Él y Ella" - primeiro no ranking de não ficção de 2011 -, com denúncias de corrupção envolvendo Néstor e Cristina Kirchner, no momento em que a presidente disputava a reeleição.

Quando ainda era uma jornalista em início de carreira, Laura Di Marco se surpreendeu ao ouvir do veterano Majul que comprou um apartamento com as vendas do primeiro livro. Hoje, ela é a autora do livro político de maior êxito em 2012. "La Campora" vendeu 60 mil exemplares em seis meses. A primeira edição de sete mil exemplares se esgotou em dois dias.

A obra conta a história de uma corrente de apoio ao governo gestada por Néstor Kirchner. "La Campora", cujo nome faz menção ao presidente argentino que ocupou o cargo em 1973 para em seguida repassá-lo a Juan Domingo Perón, é formada por jovens que atualmente ocupam cerca de 2 mil postos na máquina estatal. "Esse é um livro com a foto em movimento, escrevi à medida que os atos iam acontecendo, tive que fazer muito rápido", conta. A pesquisa e redação do livro durou um ano.

"Comecei a escrever com uma visão curiosa, depois fui me tornando mais crítica", afirma Laura. A jornalista se deparou com um desafio permanente da atividade na Argentina: é extremamente difícil checar uma informação. Assim como a maior parte dos integrantes do governo, os membros da tendência também não falam com jornalistas que não sejam kirchneristas. Laura adianta que já começou a desenvolver um novo projeto sobre aspectos desconhecidos da história de Cristina.

Embora os livros críticos tenham público maior, há espaço farto para o governismo. A biografia autorizada de Cristina Kirchner, "La Presidenta", de Sandra Russo, também liderou as listas de mais vendidos no ano passado. Neste ano, um dos destaques kirchneristas é obra de encomenda, "Eva y Cristina", de Araceli Bellotta, comparando a vida da atual mandatária com a de Evita Perón.

Araceli conta que o livro demorou nove meses para ficar pronto. A pesquisa sobre Evita ela já tinha de outros livros que escreveu e o trabalho foi centrado principalmente na parte sobre Cristina, também com várias citações de outras publicações. "Eu sou peronista e feminista", faz questão de deixar claro. "Acho importante se identificar, porque muitos dizem que são independentes e não são."

Uma frase do político argentino Antonio Cafiero muito famosa entre os "hermanos" afirma "que o peronismo dá para tudo". Não podia ser diferente na produção literária. Tanto que desta quinta ao sábado o Museu Evita em Buenos Aires está sediando a quarta edição da Feira do Livro de Temática Peronista, com debates, lançamentos e presença de 37 editoras, tanto de grandes grupos como de universidades e algumas especializadas em peronismo. As doações das editoras que participam da feira à Biblioteca do Museu dão uma medida da quantidade de publicações. Só no ano passado, foram cerca de 300 títulos. Segundo Laura Macek, uma das organizadoras, nem todos os autores são peronistas. "Há intelectuais contrários também. Demorou muito para que eles quisessem participar, mas entenderam que é um espaço de discussão", comenta.

Na última Feira do Livro de Buenos Aires, em abril, a política ocupou lugar de destaque, com presença de autoridades no debates, jornalistas e diversos lançamentos. Na capital, há um Museu da Língua e do Livro com uma seção dedicada às obras políticas. É comum encontrar na Argentina bibliotecas com obras importantes em casas de classe média. Para se ter uma ideia, entre os anos 1920 e 1970, metade dos livros em espanhol no mundo era vendida só na cidade de Buenos Aires.

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Feira do Livro de Temática Peronista

De hoje até sábado (8), Buenos Aires vai ser palco de inúmeros lançamentos literários e discussões sobre um tema intrinsecamente ligado à argentinidade: o peronismo. A quarta edição da Feira do Livro de Temática Peronista, no Museu Evita, vai reunir editoras, intelectuais e políticos.

São 25 stands com produções sobre peronismo – nem todas são a favor, há autores críticos também – e pelo menos cinco lançamentos diários nos três dias de Feira.   

As mesas temáticas de discussão reúnem para debater, um político, um estudioso do assunto e um militante peronista. A primeira, logo mais a noite, se dedica ao movimento operário. O ministro do Trabalho da Argentina, Carlos Tomada é um dos participantes.

Amanhã, a discussão é sobre as Ilhas Malvinas e, no sábado, sobre mulheres e gestão política (essa me parece a mais interessante). 

No ano passado, mais de três mil pessoas passaram pela Feira. A expectativa para esta edição, segundo os organizadores, é atrair um público ainda maior. Para quem vem a Buenos Aires neste feriado, está aí uma boa oportunidade de conhecer um pouco desta corrente política singular na América do Sul.

quinta-feira, 30 de agosto de 2012

O furacão republicano


No noticiário internacional de hoje, a Convenção Republicana, que oficializa a candidatura de Mitt Romney, divide espaço com o furacão Isaac. Estaria talvez mais para democrata este furacão. Mas para sorte de Romney, o pior já passou e, nesta quinta, o discurso do candidato deve atrair todos os holofotes.

Até agora, alguns dos destaques da festa republicana foram as aparições de Ann Romney - a esposa sobrevivente de câncer e de esclerose múltipla com carisma muito maior que o do marido - e Paul Ryan - o candidato a vice, conservador, representante do Tea Party e ex-presidente da comissão de Orçamento do Congresso.

A presença de Ann humaniza o candidato, mas a escolha do vice sinaliza que é mesmo a economia que deve ser a estrela do debate nos próximos meses. "It´s the economy, stupid", já dizia um estrategista de campanha do então candidato Bill Clinton.

Bem que a opção republicana poderia ser a de atrair os eleitores mais jovens, mulheres ou imigrantes, já que os apoiadores do partido são principalmente homens e brancos. Romney é vitorioso no voto masculino e Obama no feminino.  O recorte étnico também é bem definido, historicamente e cada vez mais, entre os dois partidos. E o país deixou de ser majoritariamente branco.

Mas vale lembrar que Obama não ganhou só porque é negro ou jovem, mas porque simbolizava uma mudança, que passava, claro, também pela economia. É bem verdade, que a crise não se aprofundou nos últimos quatro anos, mas Obama não foi capaz de trazer de volta os tão sonhados empregos e a prosperidade econômica. Avançou, mesmo que de forma tímida, na assistência social. O medicare, que proporciona alguma atenção médica a cidadãos antes desassistidos, é uma das marcas da gestão Obama. E é exatamente aí (mas não só) onde os republicanos prometem retroagir.

De um lado, a defesa do Estado mínimo, políticas ultraconservadores. Do outro, um Estado um pouco mais intervencionista, que não foi capaz de trazer a tão esperada mudança. Resta saber qual modelo vai convencer desta vez a nova cara, diga-se muito mais colorida, dos Estados Unidos.
 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

Peronismo e artes plásticas

Quadros de Carpani em exposição no Museu Evita 

Dizem na Argentina (ou melhor, a frase é do político Antonio Cafieiro) que "el peronismo da para todo". Pois esses dias, eu descobri que o peronismo também rende inspiração para as artes plásticas.

Até o final deste mês, quem vier a Buenos Aires tem a chance de conferir, no Museu Evita, a exposição do pintor peronista Ricardo Carpani. A obra do artista é inspirada principalmente na luta da classe trabalhadora. Ele chegou a pintar gratuitamente murais e cartazes para sindicatos.

Em exposição estão algumas de suas mais famosas criações, como os rostos de Eva Perón, Rodolfo Walsh e Roberto Arlt e os quadros de dançarinos de tango. Além de misturar arte e política, o artista tem um traço muito peculiar, um estilo marcado.

Outro pintor peronista - e este faz questão de se definir assim - eu descobri conversando com o escritor Daniel Guebel, que lançou recentemente "A Carne de Evita". Na obra, que mistura ficção com realidade, há um artista que realiza trabalhos por encomenda para Perón. Guebel me disse que o personagem foi inspirado em Daniel Santoro, cuja obra também é repleta de referência a Evita e à classe trabalhadora.

Pra quem tiver curiosidade, o catálogo de obras de Santoro pode ser visto na internet.

O Museu Evita também acaba de lançar um tour virtual com todo o acervo da coleção permanente. Não dá pra ver Carpani, mas dá pra sentir um gostinho do peronismo, que é tão marcante por aqui.

Também já escrevi aqui sobre os bares peronistas e recentemente uma matéria sobre os 60 anos de morte de Evita.

sábado, 21 de julho de 2012

60 anos de morte de Evita Perón

Na próxima quinta-feira (26), é o sexagésimo aniversário de morte de Eva Perón. Tantos anos depois, a presença deste ícone nacional é marcante na vida e na política argentina.

Aqui, a matéria que escrevi para o Valor Econômico.

quinta-feira, 21 de junho de 2012

Buenos Aires sem gasolina

Na semana passada, não tinha dinheiro nos caixas eletrônicos em Buenos Aires. Desde ontem, falta gasolina. Panelaço de madame de Palermo e Recoleta chama a atenção, rende belas imagens, mas quem tem força pra parar um país é protesto de trabalhador.

O Sindicato dos Caminhoneiros também ameaça cortar a distribuição de alimentos, a coleta de lixo, os correios e colocar 100 mil pessoas e 10 mil caminhões na Praça de Maio. Na noite de ontem, os trabalhadores fecharam a saída da refinaria da YPF pra impedir a saída de caminhões. No embate, o governo mandou a polícia e conseguiu que oito caminhões saíssem com combustível, mas os sindicalistas deram o troco fechando os portões com o lixo coletado na cidade.

A reivindicação é por aumento salarial, claro, por correção da tabela do imposto de renda e por inclusão nos programas sociais do governo. Mas é também uma quebra de braço entre o presidente da central dos trabalhadores, Hugo Moyano, e a presidente Cristina Kirchner.

O sindicalista, que já foi aliado incondicional do kirchnerismo, andou perdendo espaço na relação com o governo e corre o risco de perder a eleição para a presidência da central. Para demonstrar força, colocou o time dele (que são os caminhoneiros) em campo. A presidente antecipou a volta da Rio +20.

Os jornais estão comparando o embate com um divórcio e, ao que parece, em que os dois lados sairão perdendo. Como o inverno começou nesta madrugada, junto com o paro dos caminhoneiros, o César lembrou nesta manhã da famosa citação de Shakespeare na peça Ricardo III: "o inverno do descontentamento."

Foto do site iprofesional.com


sábado, 16 de junho de 2012

Vinícius nasceu!



Meu primeiro sobrinho e o primeiro primo do Tomás. Agora sim, já podemos ir pra casa da vovó. Quando alguém perguntava ao Tomás quando ele iria pra casa da vovó, a resposta era "quando o Ícius nascer".

O Vinícius nasceu hoje, às 13h50, com 50 cm e 3,16 kg. Já estamos loucos pra conhecê-lo.