Quem duvidava da força e do poder de transformação do povo árabe deve ter se surpreendido nos últimos dias. Primeiro, os tunísios derrubaram uma ditadura de 23 anos. Depois, foram os egípcios que colocaram um ponto final no governo de 30 anos de Mubarak.
Quando os protestos do Egito começaram, especulava-se que haveria uma virada islãmica, ou seja, a tão "temida" Irmandade Mulçumana acabaria tomando o poder. É uma dicotomia simplista que coloca de um lado ditaduras seculares e de outro radicais islâmicos usada por nós ocidentais para sustentar governos ditatoriais como o de Mubarak.
Não foi bem o que aconteceu. E, ao contrário, do que se podia esperar, os egípcios não desmobilizaram, não cederam às promessas de aumento nem à repressão. Ao final, ainda deram um exemplo de cidadania limpando as ruas.
Eu que sempre sou otimista continuo acreditando numa transição democrática. Os militares não ousariam contrariar a vontade do povo (acho).
Agora novos protestos eclodem ou continuam na Líbia, Iêmen, Bahrein, Marrocos. É a voz do povo árabe gritando para ser ouvida. É o esforço de um povo para ser protagonista da sua história sem interferências externas para decidir por este ou aquele regime.
Em Buenos Aires
segunda-feira, 21 de fevereiro de 2011
quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011
Porque o mundo não é mais o mesmo...
E será que alguém duvida disso?
Os recentes protestos em países árabes revelaram mais que o descontentamento com regimes autoritários. Expuseram ao mundo o uso que as massas podem fazer das redes sociais.
Muito antes da mídia tradicional se interessar e mostrar a onda de revolta na Tunísia - que culminou na queda de um presidente no poder há 23 anos -, cidadãos comuns noticiavam os acontecimentos via twitter, facebook e youtube.
O movimento contagiou os internautas egípicios que organizaram uma comunidade de mais de 90 mil pessoas no facebook. Lá, os protestos que já colocaram 1 milhão nas ruas começaram online. E foi possível assistir ao vivo transmissões por celular feitas por cidadãos comuns.
O governo chegou a proibir a internet no país, mas o google liberou um canal para envio de tuítes por telefone.
São novas formas de mobilização que tomam corpo, mas também a ocupação de um espaço - antes exclusivo dos meios de massa - pelas redes sociais.
Quando ainda se usavam as expressões primeiro, segundo e terceiro, era comum a defesa por parte de estudiosos da comunicação de uma produção regionalizada da informação, ou seja, a chance do terceiro mundo ter voz própria.
Alguns autores chamavam as agências internacionais de notícia de empresas transnacionais, que determinavam o que deveria ser considerado notícia. O resultado, para esses autores, era uma homogeneização da informação a partir de empresas localizadas em regiões centrais do mundo.
O discurso podia ser considerado, portanto, pela ótica do que Iris Marion Young denomina imperialismo cultural.
Para a autora, o conceito implica na universalização da experiência e da cultura de um grupo dominante e na imposição dessas como normas. Os grupos dominantes projetam suas próprias experiências como representativas da humanidade como um todo e, assim, reforçam sua posição ao submeter os outros grupos aos critérios de suas normas dominantes.
Mas hoje, tal discussão parece perder o sentido. Qualquer cidadão comum tem o poder de disserminar a informação, escrever no twitter, no facebook, postar vídeos, fotos na internet.
Não existe mais um mundo que interessa ao noticiário ou não, nem um discurso dominante ou não, se pensarmos que a informação é disseminada de tal forma, que mesmo as grandes agências ou redes de comunicação fazem uso do que os internautas divulgam.
Estamos diante de uma nova forma de pensar o mundo e fazer jornalismo. E precisamos estar preparados para não ignorar o que acontece bem na frente dos nossos olhos: na tela do computador.
Os recentes protestos em países árabes revelaram mais que o descontentamento com regimes autoritários. Expuseram ao mundo o uso que as massas podem fazer das redes sociais.
Muito antes da mídia tradicional se interessar e mostrar a onda de revolta na Tunísia - que culminou na queda de um presidente no poder há 23 anos -, cidadãos comuns noticiavam os acontecimentos via twitter, facebook e youtube.
O movimento contagiou os internautas egípicios que organizaram uma comunidade de mais de 90 mil pessoas no facebook. Lá, os protestos que já colocaram 1 milhão nas ruas começaram online. E foi possível assistir ao vivo transmissões por celular feitas por cidadãos comuns.
O governo chegou a proibir a internet no país, mas o google liberou um canal para envio de tuítes por telefone.
São novas formas de mobilização que tomam corpo, mas também a ocupação de um espaço - antes exclusivo dos meios de massa - pelas redes sociais.
Quando ainda se usavam as expressões primeiro, segundo e terceiro, era comum a defesa por parte de estudiosos da comunicação de uma produção regionalizada da informação, ou seja, a chance do terceiro mundo ter voz própria.
Alguns autores chamavam as agências internacionais de notícia de empresas transnacionais, que determinavam o que deveria ser considerado notícia. O resultado, para esses autores, era uma homogeneização da informação a partir de empresas localizadas em regiões centrais do mundo.
O discurso podia ser considerado, portanto, pela ótica do que Iris Marion Young denomina imperialismo cultural.
Para a autora, o conceito implica na universalização da experiência e da cultura de um grupo dominante e na imposição dessas como normas. Os grupos dominantes projetam suas próprias experiências como representativas da humanidade como um todo e, assim, reforçam sua posição ao submeter os outros grupos aos critérios de suas normas dominantes.
Mas hoje, tal discussão parece perder o sentido. Qualquer cidadão comum tem o poder de disserminar a informação, escrever no twitter, no facebook, postar vídeos, fotos na internet.
Não existe mais um mundo que interessa ao noticiário ou não, nem um discurso dominante ou não, se pensarmos que a informação é disseminada de tal forma, que mesmo as grandes agências ou redes de comunicação fazem uso do que os internautas divulgam.
Estamos diante de uma nova forma de pensar o mundo e fazer jornalismo. E precisamos estar preparados para não ignorar o que acontece bem na frente dos nossos olhos: na tela do computador.
segunda-feira, 24 de janeiro de 2011
Novas peripécias do Tomás
Andei um pouco afastada do blog, as férias no Rio, SP, Fortaleza, Foz e Brasília me deixaram meio sem tempo pra escrever. Mas não posso deixar de registrar as últimas peripécias do meu pequeno garoto esperto.
O Tomás já engatinha e fica em pé. E agora é que ninguém segura mesmo este menino.
O bom de ter uma criança pequena é perceber como a vida se renova, como tudo muda todos os dias. Sempre se aprende ou se descobre algo novo. Acho que por isso comecei este ano com uma sensação incrível de invencibilidade, de que nada pode dar errado.
E eis que logo no primeiro dia do ano o Tomás, que já ensanhava algumas engatinhadas, saiu rastejando pela sala inteira. Isso no momento da posse, enquanto a Dilma passava as tropas em revista.
É muito simbólico! Uma mulher chega a presidência, assume o comando das forças armadas depois de ter sido presa e torturada e meu filho resolve me mostrar do que ele é capaz justo neste momento.
Só posso acreditar que a vida é mesmo incrível e dá muitas voltas. Assim, como ele deu na sala.
Há poucos dias, ficou em pé, segurando no sofá, pra tentar pegar, claro, o meu computador. O Tomás é fascinado por computador, controle remoto, celular..
Eu não sei se é o preto que chama a atenção dele, os botões ou se esta nova geração já nasce mesmo com um chip programa tecnologicamente.
Se vem com um chip, devia, pelo menos, vir também com botão de desliga e manual de instruções.
O Tomás já engatinha e fica em pé. E agora é que ninguém segura mesmo este menino.
O bom de ter uma criança pequena é perceber como a vida se renova, como tudo muda todos os dias. Sempre se aprende ou se descobre algo novo. Acho que por isso comecei este ano com uma sensação incrível de invencibilidade, de que nada pode dar errado.
E eis que logo no primeiro dia do ano o Tomás, que já ensanhava algumas engatinhadas, saiu rastejando pela sala inteira. Isso no momento da posse, enquanto a Dilma passava as tropas em revista.
É muito simbólico! Uma mulher chega a presidência, assume o comando das forças armadas depois de ter sido presa e torturada e meu filho resolve me mostrar do que ele é capaz justo neste momento.
Só posso acreditar que a vida é mesmo incrível e dá muitas voltas. Assim, como ele deu na sala.
Há poucos dias, ficou em pé, segurando no sofá, pra tentar pegar, claro, o meu computador. O Tomás é fascinado por computador, controle remoto, celular..
Eu não sei se é o preto que chama a atenção dele, os botões ou se esta nova geração já nasce mesmo com um chip programa tecnologicamente.
Se vem com um chip, devia, pelo menos, vir também com botão de desliga e manual de instruções.
sexta-feira, 24 de dezembro de 2010
segunda-feira, 6 de dezembro de 2010
Culpada ou inocente?
Eu tenho vários defeitos. Sou ansiosa, estressada, agitada, estourada e por aí vai. Mas se tem uma coisa que nunca fui é neurótica. Não costumo me culpar pelo que não posso resolver, nem ficar remoendo erros passados.
Bom, mas quando você se torna mãe parece que colam uma placa de culpada na sua testa. Lendo e conversando com outras mães, vejo que o tema culpa sempre vem à tona.
É claro que me senti culpada por ele ter ficado com fome no primeiro mês, por tê-lo deixado sentir frio ou acordar molhado. Ah! E por deixá-lo cair do sofá. Mas não fiquei me martirizando.
Na verdade, sempre penso que um pouco de adversidade é bom. Tem mãe que nem deixa a criança chorar. Eu deixo só um pouquinho, mas deixo.
A vida não é perfeita pra ninguém. A gente também sente fome, frio, calor e vontade de fazer xixi. E ele nem vai saber, porque nasceu homem, o que é sentir vontade de fazer xixi segurando uma transmissão ao vivo e com alguém (no caso ele) sentado na minha bexiga.
O engraçado é que de tanto ouvir sobre esta culpa de mãe, comecei a me sentir culpada por não me sentir culpada.
Será que devia ser mais zelosa, cuidadosa, menos desencanada? Será que eu preciso me sentir culpada porque ele chorou ou ficou incomodado com alguma coisa? Ou me sentir culpada por não ter me sentido culpada porque ele chorou ou ficou incomodado com alguma coisa?
Pelo visto, mãe tem mesmo uma placa de culpada na testa. E só nossos filhos vão ser capazes de nos perdoar e inocentar um dia. Como fizemos como os nossos pais.
Bom, mas quando você se torna mãe parece que colam uma placa de culpada na sua testa. Lendo e conversando com outras mães, vejo que o tema culpa sempre vem à tona.
É claro que me senti culpada por ele ter ficado com fome no primeiro mês, por tê-lo deixado sentir frio ou acordar molhado. Ah! E por deixá-lo cair do sofá. Mas não fiquei me martirizando.
Na verdade, sempre penso que um pouco de adversidade é bom. Tem mãe que nem deixa a criança chorar. Eu deixo só um pouquinho, mas deixo.
A vida não é perfeita pra ninguém. A gente também sente fome, frio, calor e vontade de fazer xixi. E ele nem vai saber, porque nasceu homem, o que é sentir vontade de fazer xixi segurando uma transmissão ao vivo e com alguém (no caso ele) sentado na minha bexiga.
O engraçado é que de tanto ouvir sobre esta culpa de mãe, comecei a me sentir culpada por não me sentir culpada.
Será que devia ser mais zelosa, cuidadosa, menos desencanada? Será que eu preciso me sentir culpada porque ele chorou ou ficou incomodado com alguma coisa? Ou me sentir culpada por não ter me sentido culpada porque ele chorou ou ficou incomodado com alguma coisa?
Pelo visto, mãe tem mesmo uma placa de culpada na testa. E só nossos filhos vão ser capazes de nos perdoar e inocentar um dia. Como fizemos como os nossos pais.
segunda-feira, 29 de novembro de 2010
quinta-feira, 4 de novembro de 2010
Aqui e lá
Alguns aspectos comuns da eleição brasileira e da eleição de meio mandato americana me fizeram escrever este post. Aqui e lá, aconteceu, sem dúvida, uma guinada à direita no debate.
Lá, a culpa é da economia. A incapacidade de reação do governo Obama frente à crise (lá muito maior que a marolinha daqui) fez com que parte do eleitorado que depositou esperança no democrata migrasse para os candidatos republicanos, abrindo espaço para uma agenda conservadora.
E é no Tea Party, principalmente, que essa agenda encontra lugar. O movimento, ala do Partido Republicano, surgiu contra as reformas no sistema de saúde promovidas por Obama, mas defende também bandeiras como expulsão de imigrantes e fim da seguridade social. Corte de gastos público chega a ser desnecessário citar.
O movimento vai mais longe. É contrário à inclusão de negros e minorias, ao aborto e aos direitos civis dos homossexuais. Uma das principais líderes, a candidata a vice-presidente derrotada na chapa de McCain Sarah Palin se apropria do discurso religioso para colocar na agenda pública assuntos proibição do sexo fora do casamento.
Segundo o New York Times, o Tea Party tem o apoio de quatro em cada dez eleitores que foram às urnas. Não à toa, o recente movimento conseguiu emplacar sete senadores. Resultado baseado na instabilidade econômica, mas também na forma de atuação da ala republicana radical.
Os membros do Tea Party promovem, por exemplo, treinamento sobre como atrair eleitores. Algumas das dicas são abordar pessoas com crianças, cachorro ou quem tem a bandeira do país em casa.
Os pilares tradição, família e religião que amparam o conservadorismo do Tea Party também estiveram presentes na corrida presidencial brasileira. Num determinado momento da disputa foi a discussão religiosa que pautou o debate e prevaleceu em detrimento da agenda política.
O discurso conservador colocado na campanha significou, inclusive, retrocessos que não serão reparados nos próximos anos. Depois do resultado da eleição, até menções preconceituosas em relação a nordestinos e sectarimos foram colocados. Mas também é importante considerar os avanços.
Nos EUA, os republicanos cresceram em número de cadeiras no Parlamento, mas não pelo discurso conservador. O que preocupa mesmo os americanos no momento é o bolso.
Aqui, elegemos uma mulher, que não ganhou por ser mulher, mas se lembrarmos que há algumas décadas as mulheres nem votavam, este é sim um importante avanço.
Outro, sendo aqui mais otimista e adotando um enfoque pós-habermasiano, é que o simples fato de certos assuntos serem colocados na esfera pública faz com esses assuntos existem.
Se a discussão sobre o aborto, por um lado, trouxe retrocessos, por outro, passou a existir. É assim que se fortalece uma democracia. E a nossa por sinal chegou aos 21 anos. Idade pra amadurecer.
Lá, a culpa é da economia. A incapacidade de reação do governo Obama frente à crise (lá muito maior que a marolinha daqui) fez com que parte do eleitorado que depositou esperança no democrata migrasse para os candidatos republicanos, abrindo espaço para uma agenda conservadora.
E é no Tea Party, principalmente, que essa agenda encontra lugar. O movimento, ala do Partido Republicano, surgiu contra as reformas no sistema de saúde promovidas por Obama, mas defende também bandeiras como expulsão de imigrantes e fim da seguridade social. Corte de gastos público chega a ser desnecessário citar.
O movimento vai mais longe. É contrário à inclusão de negros e minorias, ao aborto e aos direitos civis dos homossexuais. Uma das principais líderes, a candidata a vice-presidente derrotada na chapa de McCain Sarah Palin se apropria do discurso religioso para colocar na agenda pública assuntos proibição do sexo fora do casamento.
Segundo o New York Times, o Tea Party tem o apoio de quatro em cada dez eleitores que foram às urnas. Não à toa, o recente movimento conseguiu emplacar sete senadores. Resultado baseado na instabilidade econômica, mas também na forma de atuação da ala republicana radical.
Os membros do Tea Party promovem, por exemplo, treinamento sobre como atrair eleitores. Algumas das dicas são abordar pessoas com crianças, cachorro ou quem tem a bandeira do país em casa.
Os pilares tradição, família e religião que amparam o conservadorismo do Tea Party também estiveram presentes na corrida presidencial brasileira. Num determinado momento da disputa foi a discussão religiosa que pautou o debate e prevaleceu em detrimento da agenda política.
O discurso conservador colocado na campanha significou, inclusive, retrocessos que não serão reparados nos próximos anos. Depois do resultado da eleição, até menções preconceituosas em relação a nordestinos e sectarimos foram colocados. Mas também é importante considerar os avanços.
Nos EUA, os republicanos cresceram em número de cadeiras no Parlamento, mas não pelo discurso conservador. O que preocupa mesmo os americanos no momento é o bolso.
Aqui, elegemos uma mulher, que não ganhou por ser mulher, mas se lembrarmos que há algumas décadas as mulheres nem votavam, este é sim um importante avanço.
Outro, sendo aqui mais otimista e adotando um enfoque pós-habermasiano, é que o simples fato de certos assuntos serem colocados na esfera pública faz com esses assuntos existem.
Se a discussão sobre o aborto, por um lado, trouxe retrocessos, por outro, passou a existir. É assim que se fortalece uma democracia. E a nossa por sinal chegou aos 21 anos. Idade pra amadurecer.
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