Em Buenos Aires
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sexta-feira, 20 de abril de 2012

Um filme sobre a praça Tahrir

O Festival Internacional de Cinema Independente de Buenos Aires (Bafici) termina neste domingo (22) e eu acabei indo só uma vez, muito menos do que gostaria. E o que assiti não tinha nada de argentino (embora eu adore o cinema dos hermanos). Pelo contrário, produção e temáticas bem distantes daqui.

O filme Tahrir: Liberation square é uma coprodução francesa e italiana e trata, claro, da revolução egípcia que derrubou a ditadura de 30 anos de Hosni Mubarak e foi um dos pontos altos da primavera árabe.

A minha escolha foi em função do horário (no meio da tarde, quando o Tomás está na escola) e do local (o filme passou no Malba, aqui do lado de casa). Mas quem me conhece sabe que eu tenho um pezinho no mundo árabe (que não nenhuma origem familiar, apenas simpatia e curiosidade por uma cultura tão rica).

Então, foi meio por acaso, mas uma feliz coincidência. O filme é um documentário do italiano Stefano Savona sobre os manifestantes que tomaram conta da praça Tahrir no começo de 2011. Centrado no dia a dia de três jovens, o documentário registra as discussões, o desejo de liberdade, a repressão e a forma alegre de manifestar.

Chama a atenção a ausência de consenso sobre o que os manifestantes realmente queriam. Sinônimo, talvez, dos tempos em que vivemos, de menos ideologia e muita, muita velocidade e tranformação. E também a alegria dos manifestantes, uma grande marca do povo árabe. A música foi o principal grito de guerra na praça, como mostra o filme.

O trailer não consegue sintetizar a grandeza do documentário, mas mostra um pouco dessa alegria. Por isso, vale a pena conferir.



Embora o filme termine com o desfecho feliz da queda de Mubarak, na vida real os desdobramentos não foram tão felizes assim. A junta militar que ficou no governo não atendeu aos apelos e ao anseio do povo egípicio por liberdade e plena democracia. Por isso mesmo, hoje, lá estão os manifestantes, de volta à praça Tahrir.

Já escrevi aqui antes sobre primavera árabe e revolução egípicia. Olhem só:


Porque o mundo não é mais o mesmo

Não foi à toa que a revista Time escolheu "O manifestante" como personalidade de ano de 2011.

quinta-feira, 3 de fevereiro de 2011

Porque o mundo não é mais o mesmo...

E será que alguém duvida disso?

Os recentes protestos em países árabes revelaram mais que o descontentamento com regimes autoritários. Expuseram ao mundo o uso que as massas podem fazer das redes sociais.

Muito antes da mídia tradicional se interessar e mostrar a onda de revolta na Tunísia - que culminou na queda de um presidente no poder há 23 anos -, cidadãos comuns noticiavam os acontecimentos via twitter, facebook e youtube.

O movimento contagiou os internautas egípicios que organizaram uma comunidade de mais de 90 mil pessoas no facebook. Lá, os protestos que já colocaram 1 milhão nas ruas começaram online. E foi possível assistir ao vivo transmissões por celular feitas por cidadãos comuns.

O governo chegou a proibir a internet no país, mas o google liberou um canal para envio de tuítes por telefone.

São novas formas de mobilização que tomam corpo, mas também a ocupação de um espaço - antes exclusivo dos meios de massa - pelas redes sociais.

Quando ainda se usavam as expressões primeiro, segundo e terceiro, era comum a defesa por parte de estudiosos da comunicação de uma produção regionalizada da informação, ou seja, a chance do terceiro mundo ter voz própria.

Alguns autores chamavam as agências internacionais de notícia de empresas transnacionais, que determinavam o que deveria ser considerado notícia. O resultado, para esses autores, era uma homogeneização da informação a partir de empresas localizadas em regiões centrais do mundo.

O discurso podia ser considerado, portanto, pela ótica do que Iris Marion Young denomina imperialismo cultural.

Para a autora, o conceito implica na universalização da experiência e da cultura de um grupo dominante e na imposição dessas como normas. Os grupos dominantes projetam suas próprias experiências como representativas da humanidade como um todo e, assim, reforçam sua posição ao submeter os outros grupos aos critérios de suas normas dominantes.

Mas hoje, tal discussão parece perder o sentido. Qualquer cidadão comum tem o poder de disserminar a informação, escrever no twitter, no facebook, postar vídeos, fotos na internet.

Não existe mais um mundo que interessa ao noticiário ou não, nem um discurso dominante ou não, se pensarmos que a informação é disseminada de tal forma, que mesmo as grandes agências ou redes de comunicação fazem uso do que os internautas divulgam.

Estamos diante de uma nova forma de pensar o mundo e fazer jornalismo. E precisamos estar preparados para não ignorar o que acontece bem na frente dos nossos olhos: na tela do computador.