A quantidade de canais de notícia na TV a cabo argentina chama a atenção. São oito canais e no Brasil apenas três. Assuntos como política e economia fazem muito mais sucesso entre os hermanos que entre nosotros.
Aqui, é mais do que comum debater sobre o governo com o taxista ou o porteiro do prédio. Discute-se política e economia com a facilidade com que se fala de futebol ou de novela. Alguns cientistas políticos e economistas viram celebridades com direito a matéria de capa na revista Caras.
E a realidade se reflete na telinha, como diriam alguns teóricos por aí. Num canal, uma mesa redonda discute o câmbio, no outro a inflação, no outro a reforma da Constituição. Até debate sobre Foucault na TV eu já assisti. E pasmem, tem audiência.
Mas nem a concorrência nem a audiência eleva a qualidade da televisão argentina (e falo de modo geral, não só dos canais de notícia) . Há bizarrices sem fim, mas eu prefiro me ater a falar do telejornalismo.
Uma matéria publicada hoje no La Nación questiona o mérito, a falta de pluralidade do noticiário. As críticas são relacionadas à cobertura do último panelaço. Milhares de pessoas nas ruas e muito pouco na TV.
Diria que falta agilidade também. E qualidade técnica. Há poucas reportagens. O mais comum é deixarem o link de vivo aberto com transmissões que vão de discurso presidencial, a protestas ou uma movimentação pós tentativa de assalto. Logo que cheguei o caso de uma menina desaparecida comoveu o país e a mãe dela, as tias, as vizinhas choravam o dia inteiro ao vivo na televisão.
Os telejornais geralmente tem bancadas enormes, com apresentadores que falam sobre tudo enquanto tomam café com medialuna. Antes dos intervalos toca até Michel Teló e Gustavo Lima. O pior dos canais de notícia usa música de suspense e letreiros (sempre os mesmos diga-se) para anunciar o início da primavera ou qualquer catástrofe.
Os brasileiros acostumados com a nossa boa e velha televisão tomam um choque. Pelo menos, os que ficam aqui em casa percebem e comentam a diferença. Quem me conhece sabe que sou apaixonada por televisão. Já trabalhei em televisão, estudei sobre televisão, adoro assistir TV e ler sobre o assunto, talvez por isso até prefiro não falar muito. E vou terminar o texto com uma justificativa/defesa (embora seja apenas uma hipótese minha, deve haver outros motivos também).
Recentemente, encontrei num livro um bom motivo que talvez explique o desnível entre a nossa TV e a argentina. Não existe uma tradição de televisão comercial. O serviço foi estatizado pelos militares e cada arma ficou responsável por um canal. Imagina como devia ser a programação da Marinha ou da Aeronáutica?? Só voltou à inciativa privada no início dos anos 1990. Ainda está engatinhando.
Em Buenos Aires
quinta-feira, 20 de setembro de 2012
quinta-feira, 13 de setembro de 2012
A "disneylândia" da Cristina
Tecnópolis é uma mega feira de ciência e tecnologia organizada pelo governo argentino. A primeira edição foi em 2011 para marcar o bicentenário da independência. E neste ano, repetiram a dose. Agora, já se fala até em transferir a Feira do Livro de Buenos Aires para o local. A exposição começou em julho e vai até o próximo mês.
No último fim de semana, fomos finalmente conhecer. O ponto alto (pelo menos pra nós) é a mostra de dinossauros. São bonecos enormes (como nunca vi um dinossauro não sei se estão em tamanho original, mas imagino que sim), com som e movimento. O Tomás que é louco por dinossauros ficou maravilhado e tem certeza que eram de verdade. Ele diz que foi para um zoológico de dinossauros.
Diante do encantamento do meu filho, eu tenho que me render e dar o crédito necessário ao grande parque de entretenimento da Cristina Kirchner. Até mesmo os jornais de oposição se renderam e admitiram que foi a grande atração das férias para crianças. No inverno tinha ainda pista de patinação e no ano passado um pedaço de um glaciar da Patagônia.
O lado feio também existe, claro. Já apareceram denúncias de corrupção e superfaturamento. Além disso, é propaganda explícita do governo. Até chegar no parque de dinossauros, há um longo caminho onde se pode descobrir, por exemplo, gastos com educação, construção de casas populares, investimento em saneamento, etc
Fora isso, é diversão garantida. Até pra quem não é mais tão pequeno assim.
No último fim de semana, fomos finalmente conhecer. O ponto alto (pelo menos pra nós) é a mostra de dinossauros. São bonecos enormes (como nunca vi um dinossauro não sei se estão em tamanho original, mas imagino que sim), com som e movimento. O Tomás que é louco por dinossauros ficou maravilhado e tem certeza que eram de verdade. Ele diz que foi para um zoológico de dinossauros.
Diante do encantamento do meu filho, eu tenho que me render e dar o crédito necessário ao grande parque de entretenimento da Cristina Kirchner. Até mesmo os jornais de oposição se renderam e admitiram que foi a grande atração das férias para crianças. No inverno tinha ainda pista de patinação e no ano passado um pedaço de um glaciar da Patagônia.
O lado feio também existe, claro. Já apareceram denúncias de corrupção e superfaturamento. Além disso, é propaganda explícita do governo. Até chegar no parque de dinossauros, há um longo caminho onde se pode descobrir, por exemplo, gastos com educação, construção de casas populares, investimento em saneamento, etc
Fora isso, é diversão garantida. Até pra quem não é mais tão pequeno assim.
sexta-feira, 7 de setembro de 2012
Leitura engajada
Por Marina Mota | Para o Valor, de Buenos Aires
Logo na entrada da livraria El Ateneo - a mais famosa e
visitada de Buenos Aires - uma das estantes de produtos à venda revela duas
paixões dos argentinos: os livros e a política. O resultado dessa combinação é
visível também nos números do mercado editorial: cerca de 25% das publicações
argentinas estão relacionadas à política, segundo Jorge Testero, presidente da
Comissão do Livro Social e Político da Câmara Argentina do Livro.
Em 2010 foram publicados 26,3 mil títulos, sendo 22,7 mil
novas obras, de acordo com dados da entidade. As vendas chegaram a quase 76
milhões de exemplares e os livros classificados como políticos e sociais
representaram mais de 20% do montante. No Brasil, mercado quatro vezes e meio
maior que o argentino, foram publicados 54,7 mil títulos em 2010, mas os
lançamentos na categoria de títulos políticos e sociais não chegaram a 19 mil,
de acordo com uma pesquisa da Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas da
Universidade de São Paulo.
Os números argentinos de 2011 ainda não estão disponíveis,
mas Testero adianta que houve crescimento. Curiosamente, os livros políticos
não são baratos, custam em média entre US$ 25 e US$ 30. "Do ponto de vista
comercial, é uma das áreas editoriais mais dinâmicas, com muitos lançamentos,
promoções e uso desses títulos pelas livrarias para atrair clientes", diz.
"No próximo ano, certamente vão ser lançados numerosos
livros por causa das eleições parlamentares, repetindo o que aconteceu em 2011,
também de eleições", afirma Daniel Molina, crítico literário e coordenador
da área de letras do Centro Cultural Ricardo Rojas da Universidade de Buenos
Aires. Como no geral são livros feitos de forma muito rápida, Molina questiona
a qualidade. "Há investigações sérias, mas também obras ruins, com muitos
erros."
Historicamente, o debate político tem sido muito popular no
país. "A decisão de compra é uma forma de marcar posição. Os partidos
estão enfraquecidos, então a classe média encontra nos livros um substituto
psicológico", diz Molina. O fenômeno, para ele, tem a ver também com uma
forte tradição de leitura. "Isso só faz sentido porque as pessoas leem
muito. Desde a independência o debate se dá dessa forma", acrescenta
Molina.
O próprio nascimento da literatura argentina está
relacionado com o tema. Em 1838, foi escrito o conto "El Matadero",
de Esteban Echeverría, que denunciava a ditadura de Juan Manuel de Rosas. Sete
anos depois, Domingos Sarmiento, futuramente presidente da República, publicou
o romance "Facundo", em que resgata a história de Facundo Quiroga, um
caudilho da província de La Rioja.
Outro marco é a obra "Operación Masacre", de
Rodolfo Walsh. Lançado em 1957, o livro narra o fuzilamento de civis pelo
governo do general Aramburu, dando os primeiros passos num estilo que acabaria
conhecido alguns anos depois como jornalismo literário, quando Truman Capote
publicou "A Sangue Frio" nos Estados Unidos. Depois de uma
entressafra de duas décadas a partir dos anos 1970 - período marcado por umas das
ditaduras mais violentas da América Latina -, a tendência voltou forte no
início dos anos 1990.
A nova onda foi inaugurada pelos livros "Robo para la
Corona", de Horacio Verbitsky, e "Por Qué Cayó Alfonsín, el Nuevo
Terrorismo Económico", de Luis Majul, dois recordistas de vendas. Ambos os
autores são jornalistas muito conhecidos no país. No ano passado, Majul lançou
outro fenômeno editorial, "Él y Ella" - primeiro no ranking de não
ficção de 2011 -, com denúncias de corrupção envolvendo Néstor e Cristina
Kirchner, no momento em que a presidente disputava a reeleição.
Quando ainda era uma jornalista em início de carreira, Laura
Di Marco se surpreendeu ao ouvir do veterano Majul que comprou um apartamento
com as vendas do primeiro livro. Hoje, ela é a autora do livro político de
maior êxito em 2012. "La Campora" vendeu 60 mil exemplares em seis
meses. A primeira edição de sete mil exemplares se esgotou em dois dias.
A obra conta a história de uma corrente de apoio ao governo
gestada por Néstor Kirchner. "La Campora", cujo nome faz menção ao
presidente argentino que ocupou o cargo em 1973 para em seguida repassá-lo a
Juan Domingo Perón, é formada por jovens que atualmente ocupam cerca de 2 mil
postos na máquina estatal. "Esse é um livro com a foto em movimento, escrevi
à medida que os atos iam acontecendo, tive que fazer muito rápido", conta.
A pesquisa e redação do livro durou um ano.
"Comecei a escrever com uma visão curiosa, depois fui
me tornando mais crítica", afirma Laura. A jornalista se deparou com um
desafio permanente da atividade na Argentina: é extremamente difícil checar uma
informação. Assim como a maior parte dos integrantes do governo, os membros da
tendência também não falam com jornalistas que não sejam kirchneristas. Laura
adianta que já começou a desenvolver um novo projeto sobre aspectos
desconhecidos da história de Cristina.
Embora os livros críticos tenham público maior, há espaço
farto para o governismo. A biografia autorizada de Cristina Kirchner, "La
Presidenta", de Sandra Russo, também liderou as listas de mais vendidos no
ano passado. Neste ano, um dos destaques kirchneristas é obra de encomenda,
"Eva y Cristina", de Araceli Bellotta, comparando a vida da atual
mandatária com a de Evita Perón.
Araceli conta que o livro demorou nove meses para ficar
pronto. A pesquisa sobre Evita ela já tinha de outros livros que escreveu e o
trabalho foi centrado principalmente na parte sobre Cristina, também com várias
citações de outras publicações. "Eu sou peronista e feminista", faz
questão de deixar claro. "Acho importante se identificar, porque muitos
dizem que são independentes e não são."
Uma frase do político argentino Antonio Cafiero muito famosa
entre os "hermanos" afirma "que o peronismo dá para tudo".
Não podia ser diferente na produção literária. Tanto que desta quinta ao sábado
o Museu Evita em Buenos Aires está sediando a quarta edição da Feira do Livro
de Temática Peronista, com debates, lançamentos e presença de 37 editoras,
tanto de grandes grupos como de universidades e algumas especializadas em
peronismo. As doações das editoras que participam da feira à Biblioteca do
Museu dão uma medida da quantidade de publicações. Só no ano passado, foram
cerca de 300 títulos. Segundo Laura Macek, uma das organizadoras, nem todos os
autores são peronistas. "Há intelectuais contrários também. Demorou muito
para que eles quisessem participar, mas entenderam que é um espaço de
discussão", comenta.
Na última Feira do Livro de Buenos Aires, em abril, a
política ocupou lugar de destaque, com presença de autoridades no debates,
jornalistas e diversos lançamentos. Na capital, há um Museu da Língua e do
Livro com uma seção dedicada às obras políticas. É comum encontrar na Argentina
bibliotecas com obras importantes em casas de classe média. Para se ter uma ideia,
entre os anos 1920 e 1970, metade dos livros em espanhol no mundo era vendida
só na cidade de Buenos Aires.
quinta-feira, 6 de setembro de 2012
Feira do Livro de Temática Peronista
De hoje até sábado (8), Buenos Aires vai ser palco de inúmeros lançamentos literários e discussões sobre um tema intrinsecamente ligado à argentinidade: o peronismo. A quarta edição da Feira do Livro de Temática Peronista, no Museu Evita, vai reunir editoras, intelectuais e políticos.
São 25 stands com produções sobre peronismo – nem todas são a favor, há autores críticos também – e pelo menos cinco lançamentos diários nos três dias de Feira.
As mesas temáticas de discussão reúnem para debater, um político, um estudioso do assunto e um militante peronista. A primeira, logo mais a noite, se dedica ao movimento operário. O ministro do Trabalho da Argentina, Carlos Tomada é um dos participantes.
Amanhã, a discussão é sobre as Ilhas Malvinas e, no sábado, sobre mulheres e gestão política (essa me parece a mais interessante).
No ano passado, mais de três mil pessoas passaram pela Feira. A expectativa para esta edição, segundo os organizadores, é atrair um público ainda maior. Para quem vem a Buenos Aires neste feriado, está aí uma boa oportunidade de conhecer um pouco desta corrente política singular na América do Sul.
No ano passado, mais de três mil pessoas passaram pela Feira. A expectativa para esta edição, segundo os organizadores, é atrair um público ainda maior. Para quem vem a Buenos Aires neste feriado, está aí uma boa oportunidade de conhecer um pouco desta corrente política singular na América do Sul.
quinta-feira, 30 de agosto de 2012
O furacão republicano
No noticiário internacional de hoje, a Convenção Republicana, que oficializa a candidatura de Mitt Romney, divide espaço com o furacão Isaac. Estaria talvez mais para democrata este furacão. Mas para sorte de Romney, o pior já passou e, nesta quinta, o discurso do candidato deve atrair todos os holofotes.
Até agora, alguns dos destaques da festa republicana foram as aparições de Ann Romney - a esposa sobrevivente de câncer e de esclerose múltipla com carisma muito maior que o do marido - e Paul Ryan - o candidato a vice, conservador, representante do Tea Party e ex-presidente da comissão de Orçamento do Congresso.
A presença de Ann humaniza o candidato, mas a escolha do vice sinaliza que é mesmo a economia que deve ser a estrela do debate nos próximos meses. "It´s the economy, stupid", já dizia um estrategista de campanha do então candidato Bill Clinton.
Bem que a opção republicana poderia ser a de atrair os eleitores mais jovens, mulheres ou imigrantes, já que os apoiadores do partido são principalmente homens e brancos. Romney é vitorioso no voto masculino e Obama no feminino. O recorte étnico também é bem definido, historicamente e cada vez mais, entre os dois partidos. E o país deixou de ser majoritariamente branco.
Mas vale lembrar que Obama não ganhou só porque é negro ou jovem, mas porque simbolizava uma mudança, que passava, claro, também pela economia. É bem verdade, que a crise não se aprofundou nos últimos quatro anos, mas Obama não foi capaz de trazer de volta os tão sonhados empregos e a prosperidade econômica. Avançou, mesmo que de forma tímida, na assistência social. O medicare, que proporciona alguma atenção médica a cidadãos antes desassistidos, é uma das marcas da gestão Obama. E é exatamente aí (mas não só) onde os republicanos prometem retroagir.
De um lado, a defesa do Estado mínimo, políticas ultraconservadores. Do outro, um Estado um pouco mais intervencionista, que não foi capaz de trazer a tão esperada mudança. Resta saber qual modelo vai convencer desta vez a nova cara, diga-se muito mais colorida, dos Estados Unidos.
terça-feira, 14 de agosto de 2012
Peronismo e artes plásticas
Quadros de Carpani em exposição no Museu Evita
Até o final deste mês, quem vier a Buenos Aires tem a chance de conferir, no Museu Evita, a exposição do pintor peronista Ricardo Carpani. A obra do artista é inspirada principalmente na luta da classe trabalhadora. Ele chegou a pintar gratuitamente murais e cartazes para sindicatos.
Em exposição estão algumas de suas mais famosas criações, como os rostos de Eva Perón, Rodolfo Walsh e Roberto Arlt e os quadros de dançarinos de tango. Além de misturar arte e política, o artista tem um traço muito peculiar, um estilo marcado.
Outro pintor peronista - e este faz questão de se definir assim - eu descobri conversando com o escritor Daniel Guebel, que lançou recentemente "A Carne de Evita". Na obra, que mistura ficção com realidade, há um artista que realiza trabalhos por encomenda para Perón. Guebel me disse que o personagem foi inspirado em Daniel Santoro, cuja obra também é repleta de referência a Evita e à classe trabalhadora.
Pra quem tiver curiosidade, o catálogo de obras de Santoro pode ser visto na internet.
O Museu Evita também acaba de lançar um tour virtual com todo o acervo da coleção permanente. Não dá pra ver Carpani, mas dá pra sentir um gostinho do peronismo, que é tão marcante por aqui.
Também já escrevi aqui sobre os bares peronistas e recentemente uma matéria sobre os 60 anos de morte de Evita.
sábado, 21 de julho de 2012
60 anos de morte de Evita Perón
Na próxima quinta-feira (26), é o sexagésimo aniversário de morte de Eva Perón. Tantos anos depois, a presença deste ícone nacional é marcante na vida e na política argentina.
Aqui, a matéria que escrevi para o Valor Econômico.
Aqui, a matéria que escrevi para o Valor Econômico.
Assinar:
Postagens (Atom)



